Wesley Moreno/Power Mix
Nova Mutum/MT
Com a aproximação do início da semeadura da soja, produtores rurais de Mato Grosso entram em setembro com os olhos voltados para o Pacífico e para o céu. A possibilidade de um El Niño de intensidade excepcional nos próximos meses aumenta a atenção sobre a safra, mas, segundo o meteorologista Luiz Carlos Molion, ainda é cedo para transformar projeções climáticas em decisões definitivas no campo.
Durante participação no Apro360, podcast da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Molion defendeu que o produtor acompanhe a evolução do fenômeno sem “pânico” e dê peso maior às condições atmosféricas e à regularização efetiva das chuvas.
A avaliação contrasta, em parte, com cenários apresentados por organismos internacionais, que apontam para um fortalecimento expressivo do El Niño.
Para Molion, porém, existe uma distância importante entre prever a intensidade do fenômeno no oceano e determinar quanto, quando e onde choverá dentro de Mato Grosso.
“Não se pode cravar nada hoje”, afirmou.
‘Super El Niño’ não significa automaticamente seca ou chuva em MT
Um dos principais pontos levantados pelo meteorologista é que modelos climáticos trabalham com probabilidades e cenários. Portanto, uma projeção de El Niño excepcional não permite concluir automaticamente que determinada propriedade enfrentará seca, excesso de precipitação ou quebra de safra.
“As informações que estamos vendo são representadas por um modelo de previsão, e não necessariamente por um padrão climático estruturado”, argumentou Molion.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM), por sua vez, informou em atualização de 31 de julho que um El Niño forte estava em desenvolvimento e poderia continuar se intensificando.
Projeções associadas à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) também apontaram possibilidade elevada de o evento alcançar intensidade excepcional no fim de 2026.
Uma atualização de agosto indicou 69% de probabilidade de um evento de intensidade histórica, considerando o índice utilizado pela agência.
Mesmo em um cenário extremo, entretanto, os reflexos não são uniformes. A intensidade do El Niño não pode ser convertida diretamente em uma previsão específica de chuva para cada município ou região produtora.
Pacífico quente é apenas uma parte da equação
Molion destaca que observar apenas o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico pode produzir interpretações incompletas.
Para que o El Niño altere de maneira consistente o regime de chuvas, é necessário haver interação entre as condições oceânicas e a circulação atmosférica — processo conhecido como acoplamento oceano-atmosfera.
“A água quente do mar não muda a dinâmica da chuva, a não ser que ela tenha uma interação direta e contínua com a atmosfera”, explicou.
Na prática, a atmosfera precisa responder às alterações observadas no oceano para modificar o transporte de umidade e outros mecanismos envolvidos na formação das precipitações.
O acoplamento entre oceano e atmosfera é um componente central do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (Enos). A divergência está principalmente na interpretação sobre o estágio atual do evento e até onde sua intensidade poderá chegar.
Setembro vira mês-chave para o produtor
Se o Pacífico está no radar dos meteorologistas, setembro coloca o solo de Mato Grosso no centro das decisões dos produtores.
O mês marca o período em que agricultores passam a acompanhar diariamente o retorno e, sobretudo, a regularização das chuvas antes de avançar com a semeadura da soja.
Molion considera a segunda metade do mês particularmente relevante para observar a evolução da circulação atmosférica no Hemisfério Sul.
E há um ponto decisivo: uma chuva isolada não significa que a estação chuvosa começou.
Antes de colocar as plantadeiras no campo, o produtor precisa considerar a umidade acumulada no perfil do solo e a perspectiva de continuidade das precipitações. Uma semeadura realizada após uma chuva pontual, sem sequência adequada, pode aumentar os riscos de falhas na emergência e comprometer o estabelecimento inicial da cultura.
Solo pode virar ‘seguro’ contra veranicos
Enquanto o comportamento do clima permanece fora do controle da porteira, Molion recomenda atenção redobrada aos fatores que podem ser administrados pelo agricultor.
Um deles é a capacidade do solo de absorver e armazenar água.
“O produtor precisa se programar e observar o céu sem pânico”, afirmou.
Práticas capazes de favorecer infiltração, armazenamento de água e desenvolvimento de raízes mais profundas podem aumentar a resistência das culturas durante os chamados veranicos — intervalos de vários dias sem precipitação em plena estação chuvosa.
Quanto maior a capacidade das raízes de explorar camadas profundas do solo, maior tende a ser a possibilidade de a planta encontrar água durante interrupções temporárias das chuvas.
Entre o alerta e o alarmismo
O cenário, portanto, exige atenção, mas não permite conclusões definitivas sobre o desempenho da próxima safra.
A possibilidade de um El Niño excepcional permanece no radar. O impacto efetivo sobre Mato Grosso, entretanto, dependerá não apenas da temperatura do Pacífico, mas da resposta da atmosfera e, principalmente, de como as chuvas serão distribuídas no tempo e no território.
Para o produtor, a diferença pode ser determinante.
O El Niño é um sinal para planejamento, não uma sentença antecipada para a lavoura.
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