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POLÍTICA Terça-feira, 15 de Setembro de 2026, 10:22 - A | A

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POLÍTICA / TUDO SE RESUME À DANCINHA

Presidente da Fenaj critica ‘tiktokização’ da campanha eleitoral

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Presidente da Fenaj


Brasília/DF



A proximidade das eleições tem intensificado o debate político no país, mas questões consideradas estruturais para o futuro do Brasil ainda encontram pouco espaço diante de crises institucionais, disputas políticas e da busca por engajamento nas redes sociais. A avaliação é da presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, que aponta um processo de “tiktokização” das campanhas eleitorais.

Em entrevista à Agência Brasil, Samira afirmou que problemas relevantes para a população acabam perdendo espaço tanto pela dinâmica adotada por parte da imprensa quanto pelas estratégias de comunicação das próprias candidaturas.

Segundo ela, enquanto veículos disputam audiência em meio a assuntos de grande repercussão, candidatos investem cada vez mais em conteúdos rápidos e estratégias voltadas às redes sociais, deixando discussões sobre programas de governo e propostas estruturais em segundo plano.

“Sofremos um processo violento de ‘tiktokização’ da campanha eleitoral. Tudo se resume à dancinha”, afirmou.

Crise institucional domina noticiário

Na avaliação da presidente da Fenaj, a atual crise político-institucional envolvendo denúncias relacionadas ao caso Master já ultrapassou os limites do Poder Judiciário e passou a envolver outras instituições, incluindo a Polícia Federal.

Para Samira, a tendência é que o assunto continue ocupando espaço significativo no noticiário durante a reta final da campanha eleitoral.

Ela pondera que a cobertura é necessária diante da relevância pública dos acontecimentos. O problema, segundo a dirigente, ocorre quando praticamente toda a atenção passa a ser direcionada à crise, reduzindo o espaço destinado à apresentação e análise das propostas dos candidatos.

Com isso, temas tradicionalmente importantes durante uma eleição, como programas de governo, demandas da sociedade civil e desafios econômicos e sociais, acabam ficando em segundo plano.

Outro ponto levantado por Samira é o crescimento do chamado “jornalismo declaratório”, caracterizado pela cobertura concentrada principalmente nas declarações e reações dos personagens envolvidos nos acontecimentos.

Na avaliação dela, esse modelo pode produzir uma cobertura superficial quando não é acompanhado de contextualização, investigação e diversidade de fontes.

Audiência e redes sociais

Samira também relaciona parte desse cenário à disputa pela atenção do público. Com o crescimento das redes sociais e o consumo cada vez mais rápido de informações, veículos de comunicação enfrentam o desafio de manter audiência sem abandonar discussões que exigem maior profundidade.

Segundo a presidente da Fenaj, acontecimentos de grande repercussão mobilizam rapidamente a atenção das pessoas, enquanto temas estruturais normalmente demandam acompanhamento contínuo.

O resultado, na avaliação dela, é uma sociedade que acaba discutindo pouco os programas de governo e as propostas apresentadas pelas candidaturas, tanto no cenário nacional quanto nos estados.

Para Samira, esse processo também prejudica entidades e organizações da sociedade civil que tentam inserir determinadas demandas no debate eleitoral.

Jornalismo precisa manter uma “segunda agenda”

Apesar da necessidade de acompanhar crises políticas e institucionais, a dirigente defende que os veículos mantenham espaço permanente para uma espécie de “segunda agenda”, voltada aos problemas estruturais do Brasil.

Segundo ela, o jornalismo não deve abandonar assuntos relevantes simplesmente porque outros acontecimentos passaram a dominar a audiência.

Entre os temas que deveriam receber acompanhamento permanente estão economia, questões sociais, geopolítica e os desafios futuros do país.

Samira também defende maior pluralidade de fontes e uma cobertura capaz de mostrar de que maneira decisões políticas afetam diretamente a vida da população.

Para ela, o jornalismo precisa ir além da lógica do “quem disse o quê” e buscar contextualizar os acontecimentos, apresentar diferentes perspectivas e aproximar o debate político da realidade dos cidadãos.

Campanhas também ficaram mais superficiais

A crítica, porém, não se limita aos veículos de comunicação. Samira avalia que as próprias campanhas eleitorais passaram por um processo de empobrecimento do debate.

Com candidatos cada vez mais concentrados em vídeos curtos, tendências e conteúdos destinados a gerar engajamento nas plataformas digitais, propostas complexas acabam recebendo menos atenção.

“Você olha os perfis dos candidatos e tudo se resume a dancinha. É uma loucura. Poucos parecem debater a sério os reais problemas do Brasil”, declarou.

Para a dirigente, a lógica das redes sociais criou uma disputa por atenção imediata que também chegou às campanhas políticas. Nesse ambiente, conteúdos simples, rápidos e de fácil compartilhamento frequentemente ganham prioridade sobre discussões mais aprofundadas.

Clima, terras raras e data centers

Entre os assuntos que Samira considera importantes para o atual processo eleitoral está a questão climática. Para ela, candidatos deveriam apresentar com maior clareza como pretendem enfrentar os impactos das mudanças climáticas e suas consequências econômicas e sociais.

Outro tema apontado é a exploração das terras raras brasileiras, minerais considerados estratégicos para diferentes setores tecnológicos e industriais.

A atração de data centers para o Brasil também aparece entre os assuntos que, na avaliação da presidente da Fenaj, merecem maior aprofundamento durante a campanha.

Samira considera que existem inúmeros temas estratégicos na agenda nacional que ainda não receberam espaço proporcional à importância que poderão ter nos próximos anos.

Para ela, o desafio da imprensa durante o período eleitoral será justamente equilibrar a cobertura dos acontecimentos imediatos com a responsabilidade de apresentar ao eleitor informações que permitam avaliar projetos, propostas e caminhos para o futuro do país.

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